
O chefe é aquele cara chato que contratam para te controlar, descobrir teus erros, te chatear com sermões, ou seja, o cara é um pentelho.
Ontem ele estava de verde, o meu chefe.
Repugnante com aquela cara de quem entende de tudo, mas que na verdade nada sabe. Normalmente ele fica horas na frente do computador com a mão direita sobre o mouse como se estivesse realmente envolvido em algum grande projeto.
Por vezes fico morrendo de vontade de despencar da minha mesa até a dele só pra ver se o que o verme olha não são aqueles sites pornôs cheios de pop ups inconvenientes, mas me contenho em olhar de longe, e tentar ler aquela mente sanguinária.
Caminha de lá pra cá com as mãos para trás, olhos atentos nas telas dos computadores dos estagiários, botões da camisa quase estourando, de tão grande a barriga da criatura, coisa medíocre.
Vez que outra ele atende ao telefone sem fio ensebado pela pele oleosa da sua cara.
Bem no estilo Oráculo do filme Matrix que tudo sabe e tudo vê, ele manda e não pede ao telefone :
--- Sim, eu quero pra hoje. Agora. Como tu vai fazer eu não sei, só sei que quero isso no máximo em 10 minutos.
Xiii... Ele percebeu que eu o observava. E lá vem o abacate ambulante em minha direção.
Me achou! Me achou! Vamos, desmaterialize!
Transforme-se! Ainda tentei gritar “morfar’ bem perto do meu relógio para ver se eu viraria um super-herói japonês, mas não...
E lá vem ele. Decido encará-lo. Afinal, sou uma mulher ou um rato? Finjo estar digitando qualquer coisa no meu computador e ele pára bem atrás de mim. Sinto sua respiração quente em minhas costas, sinto até o cheiro do alho que o verme comeu na janta de ontem.
Então me encho de coragem e olho para ele...
--- Aquele relatório que te pedi ontem? Está pronto?
Relatório? Relatório... Tento pensar rápido pois não me lembro de raio de relatório nenhum... Relatório, relatório, vamos lá mente, funcione...
E nada! Eu sou um rato, eu sou um rato!
Resolvi encenar:
--- Na verdade está quase, só faltam alguns retoques, mas até o almoço estará pronto.
--- Meio dia então. E nenhum minuto mais...
O olhar dele me cozinhava. Se bem que na verdade eu percebi que ele mais olhava para aquela pilha de papéis que não saem da minha mesa, do que para mim.
Minha mesa, meu território.
Ninguém se mete em minha bagunça organizada!
Mas que relatório é esse??
Tento afastar alguns papéis, tentando achar uma pista, um vestígio, algo que me leve a lembrar relatório do que o “soberano” me pediu e...
Nada!
Eu desisto, eu desisto...
Volto a olhar meus e-mails.
Às vezes, por alguns minutos eu acho que ele controla minha máquina lá da mesa dele, depois me esqueço disso e me delicio com os e-mails de piadinhas que recebo.
E lá vai ele naquela rotina irritante de supervisionar.
Olha daqui, mete o bedelho no trabalho de alguém acolá...
E assim ele passa o dia, para receber pelo menos umas quatro ou cinco vezes o valor do meu salário no final do mês.
Meu tempo está urgindo...
E nada de relatório. É hoje que me demitem, é hoje.
11:55 e lá vem ele.
Será que ele tem um relógio cuco que avisa que está na hora de decapitar alguém??
Mais uns cinco passos e ele chega, quatro, três, já sinto um aperto na garganta quando...
Ouço um barulho estranho em meu computador e... Puf...
Lá se vai a energia elétrica!
Ahhh eu amo a AES SUL, eu amo esses consertos em rede elétrica sem aviso prévio.
Salva pelo gongo!
Indignado ele me olha como se eu fosse culpada da falta de energia elétrica, da falta de paz no mundo, da falta de papel higiênico no banheiro da casa dele...
E eu alegre e sorridente (por dentro é claro, porque por fora exibo um melancólico olhar de indignação) pego minha bolsa e saio de fininho: hora do almoço...
Depois eu vejo o que vou fazer, isso se a energia elétrica voltar...
De barriga cheia penso melhor!
Texto escrito em 11/Jan/2003